O presente do 2ºH, da E.E. Fernando Costa!
E não é que o Ricardo voltou pra Sala de Aula depois de doze anos!
Pois é!
Tudo por "culpa" da Jumara, que é Analista Sócio-Cultural e veio trabalhar no Departamento Regional de Saúde de Presidente Prudente, o DRS XI!
Em que setor?
No Núcleo de Administração Patrimonial e Atividades Complementares, o NAPAC! O mesmo do Ricardo!
Só que a Jumara também é Professora! Dá aula em várias escolas da cidade, à noite!
Aí o Ricardo contou que é Educador Social e tinha trabalhado por quase dez anos no Projeto Criança Cidadã, da Prefeitura Municipal!
E, a partir daí, começaram a trocar figurinha sobre os trabalhos que cada um já tinha desenvolvido ao longo da caminhada...
Até que, num belo dia, assim, sem querer querendo, a Jumara convidou o Ricardo pra ir trocar umas ideias com a turma do 2º ano do Ensino Médio, da E.E. Fernando Costa, sobre os Desafios pra preservação da cultura nacional! Era o tema da redação do mês!
E o Ricardo? Ficou como?
No puro creme da felicidade!
Montou uma Oficina naquele talento! Com pintura, música e literatura!
Vai vendo só como foi...
Boa noite, pessoal!
Já preciso começar pedindo desculpas por não me apresentar logo de cara! Sei que é indelicado, mas é que faz parte do plano...
É que, antes de tudo, inclusive de dizer meu nome, eu quero propor um desafio a todos vocês!
Sei que vocês não me conhecem - eu nem me apresentei, né? - mas vou precisar que todos vocês confiem em mim sem nem me conhecer mesmo...
É o seguinte: tudo, absolutamente tudo, tudo e mais tudo do que vou falar aqui, hoje, é verdade! Pode acreditar que cem por cento do que a gente conversar aqui, hoje, é real!
Só que no meio desse mar de verdades, vai ter uma mentira! Só uma! Umazinha só! Uma única inverdade! E o desafio de vocês é descobrir qual é!
E já vou avisando que, daqui a uns vinte minutos, todos vocês vão estar pensando...
Ah, esse cara tá tirando com a gente! Falou que era uma mentira só, mas parece que tudo o que ele fala é fake! Qual é, Tio?
Mas podem botar uma fé! Muita coisa do que a gente vai falar aqui, hoje, pode parecer fora da curva, absurda, surreal, mas é tudo verdade! Só vai ter aquele um por cento que não é...
E aí, cês topam?
Toparam! Cem por cento!
Então, bora lá! Valendo a partir de agora! Quem quiser perguntar, questionar, duvidar, debater, discutir, confrontar, é só levantar a mão e mandar a letra...
Meu nome é Ricardo Sestim! Eu sou Faturista! Trabalhei emitindo notas fiscais em um frigorífico aqui da cidade por quase quatro anos. Hoje eu não emito mais notas fiscais, mas eu nunca vou deixar de ser Faturista!
Eu sou Educador Social! Trabalhei no Projeto Criança Cidadã, no CRAS Nochete, da Vila Operária, com adolescentes de 12 a 15, por quase dez anos. Hoje eu não trabalho mais na Assistência Social, mas eu nunca vou deixar de ser Educador Social!
Eu sou Executivo Público! Tô trabalhando no Departamento Regional de Saúde de Presidente Prudente, o DRS XI, há doze anos. E, quando eu não trabalhar mais na Secretaria da Saúde, eu não vou deixar de ser Executivo Público! E nunca, jamais, vou deixar de ser Servidor Público!
E foi lá no DRS que eu conheci a Professora de vocês! Ela tá trabalhando com a gente lá já tem uns meses.
Aí ela contou que dá aula aqui na E.E. Fernando Costa, que tem uma turma muito maneira e tals! Parece que é um tal de 2ºH...
E disse que o tema da redação que vocês tem que fazer esse mês é Desafios para a Preservação da Cultura Nacional.
Aí eu contei pra ela que trabalhava bastante Arte com o pessoal do Projeto e que tinha vivido umas experiências bem bacanas, que deram super certo!
Então a gente trocou umas ideias, ela achou interessante e me convidou pra vir aqui, hoje, pra compartilhar com vocês um pouco do que a gente aprendeu e ensinou lá no Criança Cidadã, aproveitando pra dar uns toques sobre os desafios de cuidar da nossa cultura.
Por isso a gente resolveu trazer o Desafio da Mentira pra vocês! Já que a parada é encarar desafio...
E, a propósito, quero informar que já fiz essa Oficina sete vezes com os meus alunos e ninguém conseguiu descobrir a mentira! Então, a responsa hoje é toda de vocês!
Vâmo abrir com Racionais! O homem na estrada...
Não acredita no que vê, não daquela maneira
Crianças, gatos, cachorros disputam palmo a palmo
Seu café da manhã na lateral da feira
Só vão na escola pra comer, apenas, nada mais...
Como é que vão aprender sem incentivo de alguém
Sem orgulho, sem respeito, sem saúde, sem paz?
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte
A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pelá metade...
Pois é!
Como é que a gente vai pensar em preservar a nossa cultura se a gente mal consegue sobreviver?
Infelizmente a gente vive num país em que a cultura não tá entre as prioridades dos governantes e da sociedade também!
A culpa não é só deles, não! É nossa também!
E vocês já devem estar aí pensando...
Então tá tudo perdido! Não tem jeito! Bora pra casa que esse lance de preservar cultura nunca vai rolar!
Opa, parou! Parou tudo! Muita calma nessa hora! A gente tá aqui, hoje, trocando ideia sobre cultura! Já é alguma coisa! E não é qualquer coisa, não!
E agora vocês devem estar aí pensando...
E a gente é quem na fila do pão? O que é que a gente pode fazer?
A gente pode tudo, meus queridos! A gente pode fazer tudo, inclusive cultura! Quer forma melhor de preservar a cultura do que fazendo cultura?
Só que tem os tais dos desafios! São quatro: conhecer, entender, gostar e - adivinhem, só? - fazer!
E dá pra enfrentar e superar?
A gente tem que, pelo menos, tentar! Com ou sem ajuda do governo! Com ou sem vontade da sociedade! A gente tem que se virar nos trinta e botar a mão na massa!
E vai que, de repente, assim, a gente se toca que os desafios podem ser as soluções!
Porque a gente só faz quando gosta!
Porque a gente só gosta quando entende!
Porque a gente só entende quando conhece!
E a gente só conhece quando alguém ensina pra gente - que é o ideal - ou quando a gente faz o corre pra aprender sozinho - que, no nosso país, infelizmente, é o real.
De um jeito ou de outro, o negócio é moer a farinha! Fazer acontecer!
E fazer diferente! Porque preservar a cultura não pode ser só repetir o que os nossos antepassados fizeram!
A gente também tem que dar a nossa contribuição! A gente também tem que deixar a nossa marca!
A gente tem que enriquecer a nossa cultura, mas também não pode cortar a raiz! A gente tem que inovar, mas não pode perder a essência!
Acha que é difícil? Acha que é impossível? Acha que é sonho? Acha que é viagem?
Então vai vendo como é que faz...
Perfeito! Noite estrelada! Vale uma fortuna, Meninas e Meninos! Sabem por quê?
Porque o Van Gogh resolveu pintar de uma forma diferente de tudo e mais tudo que é forma que se pintava na época!
Tá certo que o cara pensava tão avançado que demoraram uma cara pra reconhecer o talento dele! Mas tá aí até hoje! Lembrado, preservado, admirado, consagrado!
E essa dama, conhecem?
O nome dela é Tarsila do Amaral! Era pintora! Ela também tinha umas ideias bem fora da caixinha! Estudou na França, conheceu a arte europeia!
Mas também resolveu criar algo diferente!
Experimentou retratar as paisagens da terra dela - o Brasil - aplicando os conceitos e usando as técnicas que tinha aprendido na gringa...
Olha os animais! Olha as plantas! A fauna e a flora do Brasil!
Olha o uso das cores nacionais!
Mais influência do Van Gogh, mixando com nossa fauna e flora!
E aqui, reparem só: tem duas estruturas que são a cara da Torre Eiffel! Acharam? O símbolo da França em pleno Rio de Janeiro!
Já viram esse cara aí?
O que é que ele tá fazendo, pessoal?
Pensando!
E o nome dele é...
O Pensador!
E esse aí?
É o Abaporu!
Sabem quem pintou?
Ela mesma: a Tarsila!
Perceberam alguma semelhança com o Pensador?
Só toda, né?
Pois é!
A Tarsila, de novo, mesclando coisa da Europa com coisa do Brasil! Fantástico, né?
E por acaso, assim, de repente, vocês sabem o que significa Abaporu?
É tupi-guarani: O homem que come!
Come o quê, Professor?
Aí o Ricardo parou, respirou fundo e viu passar o filme! Depois de doze anos, voltou a ser chamado de Professor!
Calibrou a emoção, abriu os olhos e seguiu em frente...
É o homem que come ideias, pessoal! As ideias do Pensador! A Tarsila pintou esse quadro pra dar de presente de aniversário pro marido dela, o Oswald de Andrade, Escritor.
Quando ele viu e entendeu qual era a da Tarsila, resolveu criar um movimento a partir do quadro: a Antropofagia!
Que parada é essa aí, Professor?
Essa é do grego: antropo significa homem e fagia é comer!
Então a menina ligou os pontos...
Comer homem?
E dá-lhe zoeira!
Ah, sabia que a Quinta Série não ia perder essa oportunidade de aparecer!
A gente explica! Canibalismo, Meninas e Meninos! O Movimento Antropofágico partiu do conceito do Canibalismo! Artístico, é claro! Comer a arte europeia, aproveitar o que ela tem bom e transformar em uma arte nacional original, diferente!
Por isso, o Abaporu é o quadro mais valioso do Brasil! Tá avaliado em cerca de R$ 50 milhões!
Agora olha que coisa extraordinária! Olha como a Arte é transcendente! Não é que teve uma galera que teve a ideia de canibalizar o Abaporu?
Logo quem, né? O símbolo do Movimento Antropofágico! O ícone do Canibalismo Cultural! Também virou cultura pop! Pelos seus próprios princípios!
Aí fizeram o Abaporu dos Anos 2000!
Vai pirar a cabeça da molecada que hoje muitos não estão se importando com a literatura e tentando adivinhações.
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