Aê, Professor! Tem como fazer um fogo desse aí?



- Aê, Professor! Tem uma parada martelando aqui na minha mente desde aquele dia da fita da troca das panela lá no Refeitório: como foi que você descobriu o paranauê do Jorginho, do Marquinho e do Vitinho pra esconder as panela da Zelma atrás da cortina e colocar as deles na bancada?

O Educador até que podia ter respondido que tudo tinha  acontecido por acaso mesmo: que a tempestade acabou com o jogo no Morumbi antes da hora; que foi pro Refeitório pra ver se tava entrando água da chuva pelo forro do teto do prédio em condições totalmente precárias; que trombou com Jorginho, Marquinho e Vitinho saindo de lá em atitude suspeita; que uma rajada de vento arrancou as cortinas, revelando as panelas da Zelma, com a comida preparada por ela; que viu outras três panelas na bancada, com besouros, caramujos e mandruvás até as tampas; que ligou os pontos e sacou que os Três Inhos tinham aprontado a estripulia...

O Educador até que podia ter mandado a real mesmo, reconhecendo que o plano dos Três Inhos só não tinha dado bom por uma improvável combinação de coincidências que a gente costuma chamar de "coisa mandada..."

O Educador até que podia ter colocado tudo na conta da sorte, do destino, de um milagre, de um anjo, de uma conspiração do universo, de uma alquimia no puro creme da mística ou de tudo e mais tudo que acontece sem explicação em cima da Terra e debaixo do Céu...

Mas resolveu capitalizar com a graça recebida pra impressionar os adolescentes.

- Ah, Fatal! É que o Professor também já foi moleque, meu chapa! E, assim, não é por nada não, mas essa nojeirinha que os Três Inhos tentaram emplacar no Refeitório é fichinha, se comparada com as artes que a gente fazia quando tinha a idade deles!

- Serião, Professor?

- Molecada da sua época era mais virada nos setenta do que nóis, Mano?

- Abre aí pra Geral as ocorrência, Professor!

- É, Professor! Conta as presepada da sua infância pra gente ver se é nos naipe das nossa...

- Ah, Santinhas e Santinhos! Nem rola divulgar pra vocês o que a gente fazia! Porque quase tudo o que a gente fazia, lá nos anos 80, hoje é considerado crime ou conduta socialmente inaceitável! Quase tudo o que a gente fazia, trinta anos atrás, hoje é considerado politicamente ou ambientalmente incorreto! Quase tudo o que a gente fazia seria motivo, atualmente, pra cancelamento automático...

- Ah, não! Agora vai ter que por na banca, Professor! O que é que cês faziam que hoje é grave assim?

- Aê, Professor! Bora dar essa resenha, Brô! A gente fecha junto no segredo! O que for falado aqui na sala, fica aqui na sala, tá ligado?

- Então é o seguinte, meus caros! Vocês vão prometer que nunca - jamais - vão contar - pra quem quer que seja - o que eu vou compartilhar com vocês aqui, hoje! E, mais importante ainda: vão prometer que nunca - jamais - vão tentar fazer - por nada nesse mundo - o que vocês vão aprender aqui, hoje!

Ah, pensa em quase trinta pares de olhos brilhando...

- Tá topado, Professor! Ninguém vai falar nada nem fazer nada! Tá prometido! Tâmo colado! Todo mundo envolvido! Ninguém larga a mão de ninguém!

- Então, já que temos um pacto de silêncio e inação...

- Ô, Professor! Qual é? Não começa com essas palavra que ninguém conhece, Tio! Fala nossa língua, Dez! Pra gente poder entender as peripécia, falei?

- Só mais um esclarecimento antes de começar, meus queridos! Pra vocês terem uma ideia de como eram as regras sociais na década de 80: no carro, ninguém usava cinto de segurança - motorista, passageiro, pessoal do banco de trás, então, nem pensar - e todo mundo bebia tudo e mais tudo e saía dirigindo de boa, porque ou não tinha lei que proibia ou até tinha, mas ninguém cumpria e ninguém fiscalizava...

- Também não tinha proibição de fumar ao volante nem em nenhum outro lugar: repartição pública, recinto fechado, restaurante, escola! 

- Não tinha nem o SUS! Não tinha o Estatuto da Criança e do Adolescente! Não tinha o Código de Defesa do Consumidor! Não tinha a Lei Maria da Penha! Também não tinha legislação que definia os crimes ambientais! E fazer cortante também não era ilegal!

- Eita, Professor! Então os rélo devia ser nervoso, hein?

- É fatal que os moleque devia empanar as linha das pipa com tudo e mais tudo que é vidro moído e cola de madeira...

- Sem chance, Fatal! A gente não usava vidro nem cola porque deixava a linha pesada demais - fazia aquela barriga monstro quando a pipa subia - e prejudicava a movimentação pra debicar ou pra dar fuga das outras!

- Então, vocês faziam como?

- Naquela época não tinha separação de resíduos! Não tinha reciclagem! Tudo e mais tudo era considerado lixo - plástico, papel, metal, vidro - e era recolhido pelo caminhão da prefeitura e levado pro Lixão!

- Verdade, Professor? 

- Real, Berenice! Aí a gente andava pelo bairro procurando lâmpadas fluorescentes deixadas na frente das casas junto com as sacolinhas de lixo! Quando achava, a gente pegava e saía na disparada pra linha do trem!

- Que adrenalina! Mas porque cês corria pra linha do trem, Professor!

- Ah, Kinha! Essa parte é daquelas que ninguém pode espalhar nem repetir! Não esqueçam do nosso acordo, hein? 

- Fala sério, Professor! Eu nem vim pro Projeto hoje, tá ligado? Desenrola aí...

- Firmeza, Tá Ligado! A gente quebrava as lâmpadas em pedaços menores e colocava na linha pra...

- Tudo e mais tudo ser esmagado pelo trem! É fatal que devia ficar o pozinho de vidro mais fino e mais leve das galáxia

- Um cortante que deixava a linha mais afiada que lâmina de navalha de barbeiro!

- Mas e pra colar, Professor? Fazia como?

- Ah, ninguém tinha grana pra comprar cola! A gente se virava com leite de espinheiro! Era só quebrar os espinhos na base e recolher o líquido que escorria! 

- Que fórmula mais genial, Mano!

- Agora segurem essa: a gente fazia cortante na rua mesmo, na frente de todo mundo! Amarrava a linha em dois postes - bem esticada - e, pra disfarçar, colava umas bandeirinhas de festa junina, enquanto passava a mistura de pó de lâmpada e cola de espinheiro! E o cerol ia na rabiola também - antes de amarrar as tirinhas de sacolinha de mercado - pra dar invertida em maluco que tentasse cortar por baixo...

- E todo mundo achando que cês tavam fazendo decoração de São João, Professor! 

- É, tipo assim: essa nem os Três Inhos iam ter a moral de bolar!

- é lôco, irmão! Geração do Professor era mó cabulosa mesmo!

Ah, pensa em quase trinta pares de olhos brilhando ainda mais...

- Manda outra aí, Professor! Que mais essa turma Vida Loka aprontava?

- Tinha uma competição que a gente fazia todo dia, no campinho de terra, do lado da linha do trem: o Campeonato de Calango!

- Mas, hein? Como assim? Era uma corrida, Professor? E pra pegar e organizar os bicho, fazia como?

- Ah, Tiffany! Não era corrida, não! Era tiro ao alvo, mesmo! Na verdade, era estilingada no calango! Lá pelas duas da tarde - a hora mais quente do dia - eles saíam pro rolê no muro da Sanbra! E a molecada sapecava tudo e mais tudo que se movesse! Munição tinha de sobra: as britas da linha do trem! O torneio só acabava por volta das quatro da tarde, quando os sobreviventes se recolhiam...

- Que deselegante, Professor! Vocês matavam os coitadinhos só por diversão? 

- Molecada do mal, Mano! 

- Pior é o que rolava mais tarde, Anjinhas e Anjinhos! A gente pegava todos os cadáveres e colocava na linha, enfileirados, só na espera...

- Na espera do quê, Professor!

- Ah, Luana! Ah, Luana! Na espera do trem, minha querida! Que passava todo dia, com pontualidade britânica, às seis! Enquanto não chegava a hora, a gente batia aquele fut, naquele talento, ali no campinho...

- Ah, não! Não vai dizer que vocês colocavam os calangos na linha pra...

- Serem esmagados pelo trem! Quando a máquina aparecia na curva, o jogo parava! Pra todo mundo ver a bagaceira!

- Que crueldade! Essa a gente nem precisa prometer que não vai fazer!

- Tá de sacanagem, Professor? Essas história são tudo inventada pra tirar com a cara da gente, né?

- Pior que não, Presidente! É tudo vera! E tem mais: depois que o trem passava, só ficavam as peles prensadas na linha! Pareciam tatuagens...

- Que nojo! Que nojo!

- Muito, mas muito pior, mas bem pior mesmo que qualquer coisa bolada pelos Três Inhos!

Ah, pensa em quase trinta pares de olhos brilhando mais que diamantes rosas...

- E aí, querem mais? Todo mundo com o estômago firme ainda?

- E tem mais, Professor? Aff, que molecada atentada...

- Só mais essa pra fechar, Expriminhas e Exprimões! E que, por sinal, também tem trem e calango...

- Vixi! Já vi que ninguém vai almoçar hoje...

- Meu primo, Denilso, morava em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Ele era fissurado em trem! O cara era apaixonado! Maluco mesmo! Só que lá não passava trem! Não tinha linha! Não tinha nada! Então ele passava o ano inteiro no puro creme da ansiedade pelas férias de janeiro! Porque ele vinha pra Prudente pra ficar o mês inteiro e só voltava pra casa no começo das aulas, em fevereiro!

- Já sei, Professor! Já sei, Brô! Aí o seu primo vinha do Mato Grosso e se acabava de ver o trem todo dia...

- Só todo santo dia, Witney! Só todo santo dia! E se acabava participando de tudo o que a gente fazia: pipa com cortante no grau de faca de açougueiro, campeonato de calango, fut no talento e ver o trem...

- Ver o trem estraçalhando com os bichinho que cês matava, né Professor?

- Também, Djow! Também! Só que tinha uma coisa que o Denilso gostava ainda mais de fazer: a gente chamava de "Experiências..."

- Ah, prepara! Prepara, Geral! Prepara, que vem coisa pesada aí!

- Pois é! Começava logo no dia seguinte ao que ele chegava de Dourados: a gente saía, logo cedo, andando pelas ruas da vila, fuçando nas sacolas de lixo, procurando os ingredientes ideais pra experiência, basicamente resíduos orgânicos - resto de comida, bagaço de fruta, casca de ovo, osso de frango, legume estragado, borra de café, hortaliça seca, leite vencido - e também folha de árvore, coquinho roído por morcego e até cocô de cachorro...

- Que punk! E cês juntavam isso tudo pra fazer o quê? 

- Calma, Presidente! Relaxa, que tem mais! À tarde, depois que o trem passava, a gente aproveitava pra pegar o elemento essencial pra nossa experiência...

- Ah, vá! Fala sério que vocês pegavam o que sobrava dos calangos que o trem tinha esmigalhado!

- O puro creme da paçoca de calango!

- Para, Professor! Para que eu já tô passando mal!

- E ainda tinha mais um item tradicional, que a gente nunca deixava de incluir no experimento: mosca! Muita, mas muita mosca, mas muita mosca mesmo!

- Sei que vou arrepender de perguntar, Professor! Mas como cês faziam pra pegar tanta mosca?

- Simples, Gabi! A armadilha do copo! A gente ficava com um copo de vidro na mão, esperando a mosca pousar na mesa e - vapt-vupt - captura efetuada! Logo em seguida, a execução da prisioneira: a gente riscava um palito de fósforo perto do copo e - vapt-vupt - uma puxadinha de leve pra fora da borda da mesa pra deixar um espacinho pra fumaça entrar e - vapt-vupt - matar a mosca por asfixia!

- E os copos, Professor? Depois de tudo cês lavavam os copos, né?

- Quando minha vó chegava e pegava a gente no flagrante, com todos os copos da casa cheios de fumaça com uma mosca morta dentro, a gente lavava sim...

- Para, Professor! Para que eu vou vomitar!

- Ah, não! Para não! Agora, não! Agora eu quero saber como era a tal da experiência aí do Professor e do primo dele!

- Simples, pessoal! A gente pegava tudo o que a gente tinha recolhido e colocava em uma lata de tinta de vinte litros! E enterrava no quintal da casa da minha avó - entre a jabuticabeira e o pé de limão - e só tirava um dia antes do Denilso ir embora...

- Nossa! Imagina só: tudo e mais tudo que é porcaria, debaixo da terra, cozinhando quase um mês! Tipo assim, quando abria, devia ser o maior podrume!

- Ah, a gente nem abria, Ana Laís! A gente só fazia um furo na tampa da lata pra liberar o gás - pensa no cheiro mais insuportável do mundo - e - vapt-vupt - já jogava um palito de fósforo pra tocar fogo no parquinho!

- A parada pegava fogo, Professor?

- Ah, meus queridos! Pensem num fogo diferente, lindo, com chamas verdes e azuis! A gente fazia quando tava anoitecendo, pra dar aquele efeito do puro creme da belezura: línguas de fogo coloridas,  dançando! 

- Caramba! Deve ser da hora! 

- Na verdade, sem saber - no puro creme da intuição, porque Professor de Ciências nenhum falava disso na época - a gente fazia, todo ano, um esboço de uma mini-usina de queima de metano! O gás da podridão! O gás resultante da decomposição de matéria orgânica!

Ah, pensa em quase trinta pares de olhos brilhando mais que explosão de Super-nova!

- Aê, Professor! Tem como fazer um fogo desse aí? Tá certo que todo mundo deu a palavra que não ia contar nem fazer nada do que tá sendo falado aqui, hoje e tals! Mas, assim, não dá abrir essa do fogo pra Geral?

- É, Professor! Bora fazer essa com a gente! Aqui no Projeto mesmo! Você comanda a bagaça e a gente faz os corre! Descola umas três lata de tinta, junta os ingrediente, enterra no Morumbi e - vapt-vupt - fogo de metano!

- Sem paçoca de calango e sem mosca sufocada!

O Educador montou um planejamento de um trabalho ambiental pra ser desenvolvido com os adolescentes da Fase II, do Projeto Criança Cidadã - com objetivo, conteúdo, metodologia e avaliação - que contemplava adivinha só? - a questão da  transição energética, dos combustíveis fósseis pra fontes renováveis.

E aí, o fogo de metano rolou no Morumbi, com aprovação e validação da Secretaria Municipal de Assistência Social.

Ah, pensa em quase trinta pares de olhos que brilharam mais que tudo nesse mundo...

Comentários

  1. Está sendo bom recordar o tempo de professor do projeto e ainda estar colhendo os frutos do belo trabalho executado. 👏👏

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